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Marcelo Tas

Jornalista, comunicador e extra-terrestre

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O dia que quase saí na mão com Chuck Berry

Como falou Milton Young, pelo porte do senhor roqueiro, eu estava mais para levar uma surra.

"Chuck Berry está retido em Congonhas", a frase deixou a equipe da produção do show em estado de pânico. Era a primera vez que o pai do rock ia se apresentar em São Paulo, o que dava ainda mais gravidade e mostrava a bizarrice da situação. Já que o aeroporto de Congonhas fica na cidade de São Paulo, claro.

O músico só aceitava sair de Congonhas dirigindo ele próprio o carro, que deveria ser da marca Lexus. O ano era 1993, justamente o ano em que o país finalmente iria baixar alíquotas de importação. Carros importados aqui eram raríssimos. Lexus? Nem pensar. 

Monique Gardemberg, a talentosa e poderosa produtora do FreeJazz Festival, que trazia Berry ao Brasil é amiga pessoal. A pedido dela, eu estava desde cedo ao seu lado no Maksoud Plaza dando um apoio espiritual para aquele dia mágico onde além de Chuck, Little Richards, simplesmente os dois caras mais importantes da história do rock, irim se apresentar na mesma noite no Palace, em Moema, a melhor casa de shows da capital paulista na época.

Mesmo super experiente, Monique estava a ponto de surtar. Consultou o contrato com Berry, havia uma multa de três mil dólares para qualquer problema encontrado, como o do carro de sua preferência. Ela enviou imediatamente um produtor com o dinheiro em cash e mais outro carrão para a estrela avaliar. 

Enquanto isso, foi atras de um Lexus na capital paulista. Negociações tensas e Chuck decide entrar num dos carrões e está a caminho do Maksoud. Um empresario paulistano teve a boa vontade de emprestar seu Lexus que foi estacionado bem em frente a entrada principal do Maksoud.  

Chuck estacionou com sua comitiva. Apesar de meu ídolo master, eu já estava pra lá de enfurecido por fazer minha amiga querida sofrer. Ele desceu do carro, ainda perturbado por não ter sua vontade satisfeita. Cara de poucos amigos, apavorou a já apavorada Monique, que gentilmente dava as boas vindas a ele e informava que o Lexus já estava à disposição. 

Ao invés de mudar o humor, ele pediu para fazer uma inspeção no carro. Foi aí que eu arregacei as mangas da camisa. Sai andando atrás do cara que rodeava o carro examinando com uma minúscia de um cientista mirando uma bactéria no microscópio. Eu pensei [e só pararia no pensamento, claro] comigo: se esse cara resmungar de novo, vou dar uma muqueta no queixo dele. Felizmente, parece que ele ouviu minha ameaça, se virou para Monique, e quase emitiu um leve sorriso no canto da boca e disse: Nice. 

Saimos em comitiva para a passagem de som. Seis da tarde. Atrasadíssimos, já que o show era naquela noite. Como é usual, Chuck viaja sem equipe, só com sua mulher, sem instrumentos e sem músicos. Todos devem ser preparados pela equipe de produção da cidade. Ou seja, além de ainda ter que aprovar a guitarra, tinha que conhecer os músicos brasileiros que iam o acompanhar naquela noite, onde aliás, não havia ainda nem o programa musical definido.

Aí chegou o momento de revelação. Todos tensos diante do encontro do artista com o instrumento de trabalho que a produção conseguiu emprestado de Marcelo Nova, líder da banda Camisa de Venus. Chuck pega o instrumento, levanta a guitarra pro alto, como o Rafiki faz no filme com o pequeno Simba no Rei Leão. 

Dá um sorrisinho. Espeta o plug na caixa de som. Ruido dos infernos, tava tudo ligado e ninguem esperava que ele fosse espetar a guitarra no sistema inesperadamente. Mais tensão. Pena Schimit, o lendário produtor de bandas e shows brasileiros, resolve rapidamente o conflito de impedâncias e botões a serem ajustados. E então tudo se dissolve..

Chuck dá um acorde. As ondas sonoras de Roll Over Bethoven invadem o ambiente. E o cara começa a tocar na nossa frente e eis o mistário da música. Ficamos hipnotisados de experimentar o milagre de ver ao vivo o mito do rock acontecendo diante dos nossos olhos.

A noite, aberta por Little Richards, foi encerrada com um banho de Chuck, o maior influenciador da história do rock, ouçam abaixo outra bandinha que também gostou dos acordes do cara.

Quem quiser saber mais, não perca o documentário Hail Hail Rock'n'Roll Chuck Berry. E viva a lenda do rock! 


3 COMENTÁRIOS

Escreva um comentário
  • Fernando Caetano

    20 Mar 2017, 20:15

    O Little é Richard; Richards é o Keith.

  • Gill Pereira

    20 Mar 2017, 18:04

    Que texto delicioso, Tas. Digno do bom e velho Chuck (ou seria Rock'N'Roll). Grande abraço por trás!

  • Herberto Fonseca

    20 Mar 2017, 13:51

    Sensacional esse caso. Mas gostei mais da narrativa: "e o milagre acontece..."