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Marcelo Tas

Jornalista, comunicador e extra-terrestre

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O milagre da ametista ameaça bioma na caatinga

Sento Sé, às margens do rio São Francisco, recebe 8 mil garimpeiros em busca das riquezas do berço esplêndido

Para quem estava à espera de um milagre, parece que o divino ouviu as preces. Pelo menos, esta é a sensação entre o povo da cidade baiana de Sento Sé, localizada a 700km da capital.

Há cerca de dois meses, moradores da região descobriram que por baixo da terra árida da caatinga na Serra do Quixaba, próxima à cidade de Sento Sé, estavam encrostadas milhares de pedras ametistas. 

O boato logo correu pela cidade atraindo pelo menos 8 mil garimpeiros, com e sem experiência, para colecionar a pedra semi-preciosa que chega a valer R$ 3 mil reais o quilo.

Antes de virar colares e anéis na pele de mulheres ao redor do mundo, as ametistas da Serra da Quixaba estão transformando a vida de quem arrisca cavar os buracos de terra com pá e picaretas. 

A região que lamentava a falta de giro econômico, vivia até então basicamente do plantio de cebolas. O mercado local prejudicado pela qualidade ruim das vias de acesso e a carência no suporte de benefícios públicos fazem com que o IDH da região registrasse 0,58, índice considerado baixo até entre as regiões mais carentes do Brasil. 

Indianos e chineses também aproveitaram a oportunidade para ocupar a região a fim de negociar o comércio das pedras pelo mercado paralelo. 

Ainda não se sabe o dono do terreno onde concentra a exploração, no entanto, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) emitiu uma nota em 23 de maio regulamentando a extração prometendo fiscalização e um plano de suporte para reduzir os efeitos sociais e econômicos indesejados.

Entre os olhares deslumbrados dos homens e mulheres que enfrentam o sol e falta de acesso à água na região, chama a atenção a série de buracos cavados e abandonados pelos garimpeiros. 

Feitas sem qualquer orientação, as minas cavadas à mão já começam registrar seus primeiros acidentes. Na semana passada, um dos buracos erodiu ferindo três garimpeiros. 

A cena já chama a atenção de movimentos ambientalistas que se mobilizam para proteger a área, medida fundamental para preservar a área que reserva boa parcela do cenário da caatinga nacional.

Não é de hoje que o Brasil desenterra promessas da terra. Na década de 1980, a cidade de Curionópolis, interior do Pará, assistiu em escala bem maior a chagada de aventureiros que mergulharam nas minas cavadas pelas mãos dos pelo menos 30 mil garimpeiros.

A região ficou famosa com a alcunha de Serra Pelada. Estima-se que 350 toneladas de metais preciosos foram extraídos da região, entre ouro e platina. Mas não muito diferente do ciclo do ouro vivido no Brasil nas primeiras décadas do século XVIII, ficaram para trás apenas as histórias e porções de terra ocas pelas escavações.

Que o brasileiro faça uma pausa para ver a história em perspectiva. Assistimos a este filme há pelo menos 500 anos, afinal o nome Brasil se refere à primeira matéria prima que arrancamos do solo pátrio com expectativas de criar uma economia de mercado. Só que não, né?

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