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Ludmila Tavares

Causosfágica e chocólatra.

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A vida de um refugiado em São Paulo por ele mesmo

Fomos com eles ao jogo do Santos no Pacaembu

Noite de quinta-feira. O GPS me alerta que eu estou atrasada para cruzar São Paulo de oeste a leste. Combinei de buscar o Salim na estação de metrô Brás em pleno horário de pico e seguir para a mesquita do mesmo bairro. Eu ainda não tinha ideia de o que faríamos naquela noite.

Foto: Ludmila Tavares

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Salim Alkhrezati deixou a Síria para recomeçar a vida no Brasil.

Salim Alkhrezati, 33 anos, é sírio. Deixou o país em condições de refugiado para recomeçar a vida no Brasil. Na Síria, era técnico de informática e vendedor numa concessionária Jaguar Land Rover. No ano de 2011, a empresa fechou as portas assim que começou a guerra civil para derrubar o presidente Bashar al-Assad. O trabalho remunerado de Salim acabou e sua atuação como voluntário da Cruz Vermelha nunca mais o deixou sossegado. Treinado para atender primeiros socorros, acessou diversas áreas em guerra onde só militares podiam entrar.

Suas lembranças, ocupadas por cenas hollywoodianas de guerra, são um contraste oposto ao meu passado caipira em Minas Gerais. Pilhas de cadáveres, bebês amputados vivos e fuzis apontados para a sua cabeça fizeram parte do cotidiano recente dele na guerra da Síria. 

Antes do Brasil, onde está há quase um ano, Salim tentou abrigo na Turquia, Malásia, Jordânia e Líbano. Aqui, já tem CPF e carteira de trabalho. A documentação em dia não bastou ainda para conseguir um novo emprego. Para pagar o aluguel no bairro do Tatuapé, vende eletrônicos na rua em uma banquinha improvisada. Seu faturamento, por volta de 40 reais por dia, é consumido rapidamente pelo transporte e alimentação. 

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Foto: reprodução Facebook

"Eu ajudei muita gente. Agora sou eu que preciso de ajuda no Brasil", falou lembrando seus trabalhos de resgate com a Cruz Vermelha na Síria.





Os pais, duas irmãs e dois sobrinhos pequenos ainda vivem em Alepo, uma cidade ao norte do país e um dos principais palcos da guerra. As condições de quem ficou por lá são precárias. Uma hora de água, luz e Internet por dia. O custo dos alimentos e botijão de gás aumentou dez vezes desde o início dos conflitos. Khalil, seu pai, era dono de uma farmácia em Alepo. O seu antigo comércio foi ocupado por grupos terroristas. Apesar da situação, seus pais preferem resistir em vez de unir aos milhões de refugiados que buscam um recomeço em outros países. 

Salim ainda tem outros dois irmãos que se refugiaram na Turquia. A família se reúne diariamente no agitado grupo de WhatsApp chamado "I ❤️ Mama", "Eu amo a mamãe". Há dois meses, Salim recebeu o áudio da irmã com barulhos de explosões e gritos dos sobrinhos pedindo socorro. 

Ainda bem que os atentados deram uma trégua para o grupo virtual curtir uma boa notícia: o noivado da irmã solteira que aconteceu na semana passada. Sua rotina pode ser descrita pela surrada expressão: um dia após o outro. "Uma bomba pode cair a qualquer momento na casa dos meus pais", me disse emocionado quando nos conhecemos. 

Voltando à quinta-feira, Salim acordou entusiasmado para quebrar a rotina. Enviou um convite no meu WhatsApp com um português um tanto atrapalhado. Eu entendi que precisávamos estar na Mesquita do Brás para fazer alguma coisa relacionada com futebol que iria reunir 100 refugiados. Imaginei uma partida solidária num eventual rachão em um possível campinho da mesquita. Topei e resolvi contar a história aqui no Tasômetro.

Salim sonha em ser jornalista. Gostou da idéia de me ajudar a contar como vivem os refugiados sírios no Brasil. Não sou ligada em futebol. Torço para o Atlético Mineiro por osmose do afeto à paixão de minha mãe, que era fanática pelo Galo Doido. Daí minha surpresa de seguir agora entre dezenas de famílias sírias, num comboio de ônibus fretado pela prefeitura de São Paulo, a caminho do estádio do Pacaembu para assistir Santos x Figueirense pela Copa do Brasil.


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Salim fotografa família de refugiados a caminho do estádio.

Os refugiados ensaiam os gritos da torcida do Santos em árabe. Aqui dentro, futebol não parece coisa de homem. No ônibus, mulheres cobertas pelo hijab, crianças e bebês de poucos meses para compor a arquibanca árabe-alvinegra. Perto do estádio, as crianças se assustam com o estrondo dos fogos da torcida do Peixe que lembram as bombas da Síria. Dão risadas quando entendem o motivo do barulho. 

Durante a noite toda, Salim encarou o desafio de virar repórter por um dia no Tasômetro. Com um caderno e o meu celular em mãos, entrevistou e fotografou seus conterrâneos. Abaixo, o resultado da reportagem feita por ele: 



As irmãs Halah e Bessan Hanana, 13 e 11 anos, refugiadas no Brasil há um ano com o pai, mãe e um irmão de cinco meses, se despediram do estádio cantando "O Sol" de Jota Quest. Mostraram com a música que não dão mais ouvidos para a dor e o medo depois que encontraram a paz no nosso país.


Quer conhecer outra história de refugiados no Brasil? Clique aqui e leia a matéria do jornal Destak na edição especial com o Marcelo Tas como diretor de redação por um dia. 

1 COMENTÁRIO

Escreva um comentário
  • Ahmad Saad

    08 Out 2015, 19:37

    Sou de Siria e fico muito emocionado com o texto. Muito bonito. obrigado Brasil.

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